Ambiente Noir

Pássaro sem pena

Era uma vez, no alto de um jequitibá muito antigo, um ninho cheio de ovos. Quando as cascas quebraram, nasceram três passarinhos lindos. Mas um deles, o Zeca, era diferente. Enquanto seus irmãos tinham penugens macias, Zeca nasceu com as asinhas peladas, sem nenhuma pena sequer.

O tempo passou e o grande dia chegou: o dia do primeiro voo.

— Vamos lá! — gritaram os irmãos de Zeca.

Eles bateram as asas e vosh, vosh, saíram voando pelo céu azul. Zeca tentou. Ele se esticou, bateu as asinhas com toda a força, mas nada aconteceu. Sem penas, não havia vento que o sustentasse. Ele ficou ali, sozinho no galho, vendo seus irmãos brincarem nas nuvens.

Sua mãe, com muito amor, o cobriu com sua própria asa.

— Não fique triste, meu filho. Você é especial de outras formas — dizia ela, trazendo as melhores minhoquinhas para ele.

Mas a floresta não era tão bondosa quanto a mãe de Zeca.

— Olhem lá! O pássaro que pensa que é tatu! — gritava o Papagaio, rindo alto.

— Um pássaro que não voa é um erro da natureza — sentenciava a Coruja, lá do alto, com ar de superioridade.

Todos os bichos riam e cochichavam. Zeca encolhia-se no ninho, sentindo um frio que não era só do vento.

Até que, numa tarde de sol alaranjado, um Pássaro Viajante pousou no galho ao lado. Ele vinha de terras distantes e tinha penas que brilhavam como o mar. Ele observou Zeca quietinho e achou aquilo curioso.

— Por que você não está voando com os outros, pequeno? — perguntou o Viajante.

— Eu não tenho penas... — respondeu Zeca, baixinho.

O Pássaro Viajante sentiu o coração apertar. Ele olhou para suas próprias asas, fartas e fortes.

— Eu posso resolver parte disso — disse o Viajante. Ele arrancou uma de suas belas penas azuis e, com cuidado, a prendeu na asa de Zeca. — Eu queria te dar todas, meu amigo, mas se eu fizer isso, eu é que não poderei voar!

A floresta inteira ficou em silêncio observando aquela cena. O Papagaio parou de rir. A Coruja arregalou os olhos. Eles viram aquele estranho dividindo o pouco que podia, sem pedir nada em troca.

Uma vergonha bateu no peito dos pássaros da floresta.

— Eu... eu tenho penas sobrando — disse o Papagaio, meio sem graça. Ele voou até Zeca e lhe deu uma pena verde brilhante.

— As minhas são fortes — disse a Coruja, descendo do seu trono. Ela entregou uma pena marrom e resistente.

De repente, formou-se uma fila! O Cardeal deu uma pena vermelha, o Canário deu uma amarela. Cada pássaro da floresta deu um pouquinho de si.

Quando terminaram, Zeca não era mais um pássaro sem penas. Ele era o pássaro mais colorido que o mundo já tinha visto! Suas asas tinham todas as cores da floresta e do céu.

Zeca olhou para sua mãe, que chorava de emoção. Ele respirou fundo, abriu aquelas asas novas e coloridas e se lançou no ar. O vento o segurou! Ele subiu, girou e fez piruetas. Ele podia voar!

Zeca estava tão feliz que decidiu também ser um pássaro viajante. Antes do próprio Pássaro Viajante partir, o sábio olhou sério para a Coruja, para o Papagaio e para os outros bichos que ficaram no galho.

— Que bom que vocês ajudaram — disse ele, com a voz firme. — Mas lembrem-se: não esperem um estranho vir de longe para ensiná-los a cuidar de quem vive ao lado de vocês.

E assim, Zeca e o Viajante sumiram no horizonte, deixando para trás uma floresta mais silenciosa, mas muito mais sábia.

***

Nota: Esse é um conto que surgiu de improviso, para contar para meu filho de três anos e meio.

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