O Monstro na Neve
Nas profundezas de uma floresta onde o inverno reinava sem fim, vivia uma criatura sem nome. Era alta como um pinheiro jovem e branca como neve recém-caída. Quebrava o gelo para os salmões respirarem, desenterrava nozes congeladas para alimentar os esquilos, colhia as frutas mais doces para os pássaros recém-nascidos.
Certo dia, o silêncio da floresta foi quebrado por latidos e passos pesados. Uma família de humanos chegou à região, acompanhada de flechas de sílex e o cheiro de fogueira.
Ao montar acampamento, o pai encontrou uma pegada na neve. Era profunda e larga, três vezes maior que a pata de um urso. Sentiu o medo apertar seu peito. Chamou os filhos, a voz grave: "Jamais se afastem da tenda. Há algo lá fora, algo imenso. Se a pegada é assim, imaginem a fera.
Na manhã seguinte, os pais precisaram sair para caçar, deixando as crianças com ordens estritas de permanecer junto à fogueira. Mas a curiosidade das crianças era indomável, e a floresta sussurrava seus convites. Quando os pais saíram, elas desafiaram o aviso. Saíram para brincar, apenas um pouco, pensaram. Mas a floresta era um labirinto de branco e cinza. Em poucos minutos, estavam perdidas..
O gigante as encontrou encolhidas sob a raiz de um pinheiro, a pele azulada pelo frio. Ele não rugiu. Com uma delicadeza que não combinava com seu tamanho, recolheu-as em seus braços quentes e peludos. As crianças, sentindo aquele calor bondoso, pararam de chorar. Ele as levou para sua caverna, protegendo-as do vento cortante.
Quando os pais retornaram, encontraram apenas o vazio. Do lado de fora da tenda, viram as pegadas pequenas dos filhos sumindo na mata, e logo ao lado, as pegadas colossais. "Ele as levou!", gritou a mãe, lágrimas congelando em seu rosto. O pai pegou a lança, os olhos tomados por fúria e medo. O céu escureceu e uma nevasca começou a uivar.
Lutando contra a tempestade de neve, guiados apenas pelo pânico de perderem o que mais amavam, os pais seguiram o rastro até a boca de uma caverna escura. A nevasca açoitava suas costas, aumentando a urgência. Eles precisavam ser rápidos. Eles precisavam ser letais.
Lá dentro, o gigante dormia, o peito subindo e descendo devagar. À luz fraca, viram manchas vermelhas intensas no pelo branco. Sangue, pensou o pai, e seu coração disparou. O medo guiou a lança; não houve hesitação, apenas o som seco de metal rasgando carne. Com um golpe certeiro e trágico, o monstro deu seu último suspiro sem nem mesmo acordar.
Foi então que as vozes infantis quebraram o silêncio. "Papai! Mamãe!" As crianças surgiram dos fundos da caverna, quentes e vivas, mas seus olhos se encheram de lágrimas ao verem o guardião caído.
"Por que fizeram isso?", gritou o menino mais velho, abraçando a pata inerte da criatura. "Ele nos salvou do frio! Ele nos trouxe para cá porque a nevasca estava chegando." A menina apontou para as manchas vermelhas no pelo do monstro e depois mostrou suas próprias mãos e boca, também sujas de vermelho. "Ele nos deu as melhores amoras da floresta para comer... ele estava apenas sujo de suco de amora."
Os pais largaram suas armas, caindo de joelhos na pedra fria da caverna. O vento lá fora continuava a uivar sua canção de escárnio, mas dentro da caverna o silêncio era absoluto. Eles olharam para o gigante gentil que a floresta havia perdido, entendendo tarde demais que o verdadeiro monstro naquele dia não tinha garras nem presas; o verdadeiro monstro tinha sido o medo cego que eles carregavam dentro de si.
Nota: Este conto pode ter dois finais, dependendo da idade do público. Na versão para crianças menores, as vozes infantis surgem antes do golpe fatal. O pai ergue a lança, mas as crianças aparecem a tempo de impedir a tragédia. Ambas as versões ensinam sobre não julgar pelas aparências, mas a primeira oferece esperança e redenção, enquanto a segunda, tal como está escrita aqui, explora as consequências irreversíveis do medo e do julgamento precipitado. Esta história nasceu de improviso para meu filho de três anos.Naturalmente, com o final otimista!